O programa de Destinos Turísticos Inteligentes completou sete anos com adesão crescente e respaldo do Ministério do Turismo. O problema está em outro lugar: sem transparência nos critérios, o selo não orienta ninguém.
O Ministério do Turismo estruturou, a partir de 2018, um programa de certificação com quatro eixos claros, referência internacional comprovada e adesão crescente entre municípios brasileiros. A base conceitual veio da Espanha. A lista de cidades certificadas foi crescendo. O viajante ficou de fora da equação.
Curitiba, Foz do Iguaçu e Fortaleza figuram entre os destinos mais citados quando o assunto é o programa de Destinos Turísticos Inteligentes. As três cidades chegaram ao título por caminhos distintos e entregam experiências distintas para quem visita. O que nenhuma das três, nem qualquer outro município da lista, tem é um comparativo público que permita ao turista entender o que aquela certificação garante antes de comprar a passagem.
O problema central do programa brasileiro não está na estrutura. Está na opacidade.
Sete anos de certificação e nenhum ranking acessível ao viajante
O modelo DTI chegou ao Brasil a partir do programa desenvolvido pelo Instituto Valenciano de Tecnologias Turísticas, o Invat·tur, da Espanha. O original tinha um componente que tornava o programa útil além das fronteiras institucionais: a publicação periódica de indicadores por destino, com desempenho comparável entre cidades certificadas. O viajante espanhol podia usar o selo como critério real de escolha porque sabia o que cada destino havia alcançado em cada eixo.
A adaptação brasileira preservou a estrutura de avaliação, os quatro eixos de governança, sustentabilidade, acessibilidade e tecnologia, mas não trouxe o componente de transparência comparativa. O Ministério do Turismo certifica municípios e não publica um ranking acessível que mostre quais cidades lideram em cada eixo, quais estão abaixo da média e quais receberam o título sem entregar infraestrutura real ao turista. O selo existe. O dado que o tornaria útil, não.
O mecanismo que permite certificar sem transformar
A avaliação dos municípios considera quatro dimensões simultâneas: governança, sustentabilidade, acessibilidade e tecnologia. A lógica era criar um padrão mínimo de qualidade que sinalizasse ao viajante e ao setor privado que aquele destino havia passado por uma transformação real. Na prática, o processo de certificação não exige desempenho mínimo simultâneo nos quatro eixos. Uma cidade pode avançar em governança e permanecer com infraestrutura tecnológica precária, e ainda assim receber o título.
O resultado é uma lista de destinos com perfis muito diferentes entre si, sem distinção visível para quem está de fora. O Wi-Fi público de uma cidade certificada pode cobrir apenas o centro histórico com sinal instável. O aplicativo oficial de turismo de outra pode estar desatualizado há meses. A sinalização acessível, um dos pilares centrais do programa, ainda aparece como item complementar em boa parte dos municípios que carregam o título.
O que Curitiba e Foz do Iguaçu entregam que os outros DTIs ainda não chegaram
Curitiba é o caso mais citado porque a infraestrutura que o programa reconhece foi construída antes dele. O sistema de transporte integrado da cidade, desenvolvido ao longo de décadas, criou uma base de mobilidade urbana que o DTI apenas formalizou. A acessibilidade de Curitiba também antecede a certificação federal. O título veio depois de uma transformação real, não como estímulo para ela.
Foz do Iguaçu chegou ao mesmo resultado por pressão de mercado. A condição de cidade de fronteira, com fluxo constante de turistas internacionais e demanda por serviços em múltiplos idiomas, forçou investimentos em conectividade e sinalização que municípios do interior sem esse volume de demanda não tiveram o mesmo motivo para fazer. O turismo de alta frequência criou a necessidade. A infraestrutura veio para atendê-la. O selo reconheceu o que já estava feito.
Nos dois casos, a variável decisiva não foi o programa federal. Foi a existência de uma demanda real que antecedeu e justificou o investimento.
O custo da opacidade para o setor privado
Para hotéis, operadoras e guias que atuam em cidades com o título DTI, a certificação deveria representar uma vantagem mensurável. Um destino com infraestrutura tecnológica real, mobilidade integrada e acessibilidade consistente atrai um perfil de viajante com maior gasto médio, maior tempo de permanência e maior propensão a indicar a experiência. Esses são os indicadores que o setor persegue.
O problema é que, com critérios opacos e entrega desigual entre os municípios certificados, o título funciona mais como comunicação institucional do governo federal do que como sinal confiável para o mercado. O hoteleiro que avalia se vale abrir uma unidade em determinada cidade não consegue usar a certificação DTI como dado de decisão, porque a certificação não informa o suficiente sobre o que aquela cidade realmente entrega ao turista que chega.
A pergunta que o programa ainda não respondeu
O modelo original que inspirou o DTI brasileiro funciona. Em Valência e Benidorm, a versão espanhola produziu crescimento mensurável em satisfação do turista e redução de fricção operacional para o setor privado. O Brasil copiou a arquitetura com competência. A distância está na execução e, mais especificamente, na ausência de prestação de contas pública sobre o desempenho de cada destino certificado.
As cidades brasileiras que entregam infraestrutura real, conectividade estável, mobilidade integrada e acessibilidade efetiva crescem acima da média do setor com ou sem o título. O programa federal tem sete anos, respaldo político e uma base conceitual que funciona em outros países. O que ainda falta definir é se o objetivo do DTI brasileiro é reconhecer transformações que já aconteceram ou ser o instrumento que provoca as que ainda não começaram. As duas apostas têm implicações muito diferentes para o orçamento, para os municípios e para o viajante que, por enquanto, continua sem saber o que aquele selo garante.
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